Duas partes

Featured imageA mesma rotina de sempre: acordar com um despertador ensurdecedor, escovar os dentes, preparar a mochila, tomar o café da manhã e pegar o ônibus lotado de alienados. Sempre assim, a minha vida era mesmo um tédio. Mas, não sei porque, de alguma maneira eu senti que algo diferente iria acontecer hoje. Obviamente eu não prevejo futuro, mas foi por parte de minha intuição. Bom, não é todos os dias que me sinto assim mas resolvi deixar pra lá. Geralmente nada tem importado tanto assim pra mim.

E la estava eu, com a típica saia preta do colégio, minha blusa branca e os meus pares de tênis all star esperando impacientemente o ônibus chegar. Olho para um lado e já avisto um casalzinho se agarrando, e do outro um grupinho fazendo piadinhas e rindo de qualquer coisa. Provavelmente era sobre mim, já estava acostumada com esse tipo de coisa. Nem era mais uma surpresa.

Confesso que sinto muita falta dos tempos antigos, ou até mesmo da infância. Quando criança eu tinha dois grandes amigos. Gracie e Edward. Nossa, só de pensar nesses nomes me dá uma grande agonia. Gracie, uma menina linda de olhos castanhos e CABELOS um pouco abaixo dos ombros. Usava óculos garrafão mas mesmo assim nunca conseguiram tapar a beleza que havia em seus olhos. Tão pequena e tão ingênua. Deus, como o tempo passa rápido!

Seu pai foi promovido e teve que se mudar para outro país, e consigo levou toda a família. Ela insistiu muito pra que ficasse, mas nem idade pra se sustentar tinha. Era apenas uma criança, assim como eu. Na última vez em que tive contato com ela foi através do skype, um ano atrás. Ela continuava linda, mas sem o famoso óculos. Sinto tanta falta dela, de tudo o que faziamos e principalmente quando íamos em um parque que ficava pertinho da casa dela. Foi um pedaço da minha história que se foi.

Já fizemos muitas promessas. Que um dia iremos nos visitar era a principal. Não sei se isso vai demorar, espero que não. Mas tenho medo, tenho medo dela me esquecer. De esquecer de tudo o que passamos juntas. Isso realmente me preocupa.

Já Edward era totalmente diferente de Gracie. Ele era super extrovertido, falava com todo mundo e era muito brincalhão. Loirinho com olhos azuis, sim era lindo! Na época em que nos conhecemos ele apenas pediu uma caneta emprestada. Incrível como pequenas situações podem mudar completamente nossa vida. E foi assim, fomos conversando, trocamos contatos e viramos praticamente irmãos. Confesso novamente que chegou uma época em que eu comecei a gostar dele, mas nada tão profundo. Ele também gostava de mim, mas sempre como amiga, e eu, a mesma coisa.

Porém a frase “incrível como pequenas situações podem mudar completamente nossa vida” também tem seu lado ruim. Foi tudo muito de repente. Eu estava estudando química com Gracie no meu QUARTO quando recebo uma ligação. Naquele dia ed viajaria de CARRO com seus pais para visitar sua avó mas acabou numa grande tragédia. O pais ficaram com pequenas lesões em todo o corpo, mas ed infelizmente não sobreviveu. Quando escutei a mãe dele desesperada falando comigo eu não consegui, eu comecei a chorar muito. Muito mesmo. Quando ela me ligou eles já estavam no hospital quando receberam a notícia. Eu não conseguia acreditar, minha mente não processava direito. Eu soluçava sem parar, meu chão parecia estar desabando, desaparecendo. Eu me senti vazia, até hoje me sinto. Eu estava acabada. Gracie também chorava muito e nós duas nos abraçavamos muito forte. Nada seria mais a mesma coisa sem ele.

Ele me alegrava nos piores dias. Apesar de ser desastrado e brincalhão, era uma pessoa maravilhosa, um anjo com os olhos da cor do céu. Eu simplesmente queria acordar daquele pesadelo, mas era impossível. A partir daí era como se a minha vida não fizesse mais sentido. Eu olhava para a cadeira do meu lado e não havia ninguém. Apenas alguns rabiscos deixados por ele e uma grande história, na verdade várias. Sentia uma imensa vontade de chorar. Como eu queria dar um último abraço apertado nele, pelo menos isso. Me sinto incompleta por dentro e por fora.

“Duas partes de mim se foram, qual será a próxima?” essa é a frase em que penso todos os dias. Depois de dois tiros no meu coração, eu me afastei de tudo e de todos. Eu não tinha mais razão para viver. Eu não sei, eu simplesmente não sei o que aconteceu comigo, com a minha vida. Não tenho mais nada a fazer aqui.

Como sempre, fui a primeira a entrar no ônibus e sentei no ultimo banco. Coloquei minha mochila ao meu lado me certificando de que ninguém iria sentar do meu lado. É melhor assim, acreditem. O céu estava totalmente escuro, carregado. As nuvens se demonstravam frustradas, como se estivessem perdidas , assim como a minha mente. Ainda havia algumas gotículas presas no vidro. Essas eram as minhas lágrimas, e é por isso que sempre gostei de dias assim: escuros, frios e chuvosos pois eles eram os únicos que me entendiam.

Todo aquele barulho de pessoas conversando e risos sobre assuntos fúteis acabavam aos poucos quando aumento o volume da música e me perco nela. Se tem uma coisa que realmente amo é música. Não importa o que eu esteja sentindo, a musica sempre me anima ou me conforta, não preciso de mais nada além de música. Ao longo do trajeto, a voz da Lana Del Rey ecoava em todo o meu corpo e me fazia sair dali. Estava tudo tão relaxante quando sinto uma mão tocar o meu braço. Senti um frio percorrer meu corpo da cabeça aos pés. Abri o olhos rapidamente e quando olhei era o motorista. Ele pediu para eu sair e logo fui guardando os fones e o celular na mochila. Porém algo me chamou atenção. Quando me virei pro corredor havia um garoto alto usando uma jaqueta jeans e tênis all star preto de cano alto com os cabelos perfeitamente bagunçados olhando diretamente pra mim. Minha garganta fez um nó e por um segundo esqueci como se anda.

– Você não vem?

Como assim “você não vem??”, um desconhecido que nunca vi na vida do nada diz isso pra mim? Eu não entendi nada mas rapidamente sai do ônibus rezando para nunca mais dar de cara com esse ser.

A primeira aula era de literatura, uma matéria que não era tão ruim assim, pelo menos pra mim. O professor até que ajudava tornar a aula melhor, graças a deus. Eu sentava na primeira carteira bem no meio da sala. Digamos que eu não sou nerd, eu me esforço bastante para tirar notas boas e tenho de prestar atenção na aula mas as vadias acéfalas sempre dão um jeito de atrapalhar. Juro que dá vontade de jogar uma bomba lá atrás. Voltando, eu fico na frente e não acho tão ruim. Só assim fico longe de muitos vermes dali de dentro. A única pessoa com quem converso ali é a Marie. Ela também não gosta da turma mas diferente de mim ela tem vários amigos. Nos identificamos em vários aspectos e sempre conversamos sobre vários assuntos e nunca me arrependi de ter a conhecido. Pelo menos alguém para me ajudar a sobreviver daquele inferno. Não odeio a escola ou os professores, funcionários.. odeio o tipo de gente que me rodeia. Só sinto vontade de vomitar.

Depois de quatro aulas seguidas o sinal bateu. Marie me deu um abraço e foi pro andar de baixo encontrar os amigos. Eu, como todas as vezes, fico em algum canto do colégio onde ninguém possa me ver, mas hoje decidi ir para o teatro onde há um grande piano no canto do palco na frente de grandes cortinas vermelhas. Quase nunca eu ia pra lá (até porque nem podia sabe..), mas sempre tive medo de ser pega lá dentro mas hoje não me importei, eu precisava esvaziar minha mente.

Eu ainda não sabia tocar totalmente o piano, mas aos poucos eu estava aprendendo. Como eu não tenho um piano em casa e meus pais não podem bancar um pra mim, de vez em quando eu vou lá para treinar minhas pequenas “habilidades” e fugir um pouco da realidade. No teatro eu estava sozinha de corpo, mas não de alma. Eu sinto a presença deles lá. É como se os dois estivessem ali me assistindo e quando acabasse nós três iríamos nos abraçar. Eu literalmente vivo de ilusões e pequenas lembranças.

A melodia produzida pelo piano me fascina. Eu estava tentando tocar not about angels da birdy, que aos poucos entrava na minha mente e eu relaxava um pouco. Estava tudo indo muito bem até que escuto um barulho vindo dos assentos. Não não não, agora não meu deus. Um calafrio percorreu minha espinha e eu simplesmente parei de tocar. Apenas o palco estava um pouco iluminado pelos holofotes. Decidi me arriscar:

– Quem está ai?

Não obtive resposta. Meu desespero aumentou e comecei a suar frio. Eu estava imóvel, não tinha controle dos meus próprios membros.

– Até que você leva jeito -ouvi uma voz masculina soar em meio aquela escuridão. Meu coração parou. Não podia ser quem eu estava pensando, não mesmo.

-Que seja, quem é você? -eu tentei ser bem fria e direta, não queria me aproximar de ninguém.

– Wow, calma linda. Eu apenas te elogiei. Eu não vou te sequestrar e te matar. E aliás, devia me agradecer.

– Olha eu realmente não estou de brincadeira, quem é você?

Fiquei uns 3 minutos esperando alguma resposta, e logo que me deparei, vi um garoto alto surgir em meio a luz que ainda havia no palco. Eu já estava levantada e não sabia como reagir . Provavelmente ele deve ter percebido meu desespero e soltou uma leve risada com as mãos no bolso. Isso fez eu explodir de raiva. Era ele mesmo.

– Posso saber o que faz aqui??

– Te pergunto o mesmo.

– Oi? Querido eu estava aqui primeiro, então você que tem que me dar respostas.

– Opa, então você é a dona desse teatro?

-Cala essa boca e me fala.

-Não te devo nenhuma explicação linda.

-Olha aqui, eu sempre venho aqui e nunca vi ninguém, por que logo hoje você decidi vir?

– Você não vem sempre aqui.

Oi? Como assim ele sabia que eu não ia ali toda hora? Esqueci como se respirava.

– Querido, como assim você sabe que não venho sempre aqui? -retruquei.

– Ué, você não disse que vinha sempre?

– Ok chega, você esta confundindo minha cabeça. Ja entendi qual é a sua. Eu saio daqui e você pode usar o piano ta? Desculpe -disse totalmente fria e impaciente. Eu não queria sair dali, óbvio, mas não tive escolha. Não queria conversar com ele muito menos fazer contato visual.

– E quem disse que eu queria usar o piano? -enquanto ele dizia, se aproximou mais de mim e apoiou os dois braços no piano. Eu estava em pé atrás do banco.

– Então o que faz aqui?

-Talvez por que eu quisesse??

Nos encaramos por alguns segundos quando de repente o sinal toca. Isso me despertou, graças a deus, e logo peguei meu livro de anotações que eu sempre levava pro intervalo. Eu não sei o que deu na minha cabeça, só sei que andei muito rápido, mas não foi o suficiente. Quando ia começar a subir os degraus ele puxou meu braço e me pois de frente pra ele:

– Olha eu sei que isso foi estranho ta? -ele deu uma pequena pausa falando mais devagar- mas eu não vou te machucar, confia em mim.

Meu estômago começou a embrulhar, minhas pernas ficaram literalmente bambas e meu coração acelerava cada vez mais. Eu só naquele instante pude apreciá-lo. Os olhos azuis como o céu, acabei me perdendo neles. Eles estavam totalmente direcionados aos meus. Toda aquela atmosfera estava me causando efeitos estranhos, de todos os tipos possíveis. O que ele queria de mim?

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